Thursday, June 29, 2006

"Não tem jeito, ele não responde mesmo...."

Um dia descobrimos que o que é certo e errado é relativo. Isso incomada a tranquilidade de qualquer ser humaninho que principia em vida, pois aquela certeza advinda do saber que vermelho é vermelho, e rosa é rosa, sucumbi lentamente. Chamam isso de amadurecimento, e é perturbador saber que muitas vezes é com ódio que se ganha uma batalha, que é com gana que matamos deuses e repelimos tradições. Já me é indiferente saber as cores de suas púpilas.

Gostaria que ela soubesse o quanto a amo, que estar longe é melhor do que estarmos juntas, pois do contrário, nem eu, e nem ela nos levantaríamos. Eles me chamam de cínica, e é triste concordar com tal assertiva bem na hora em que compro um batom - quem nos ama nos machuca. Eu disse a ela no telefone: "Por favor, não me ligue mais, aguente as pontas e seja o seu próprio Teseu". Desliguei e voltei a dormir. Te amo, querida, peço que faça o mesmo: abaixe a cabeça mas não mais por temor e admiração, mas sim por ter aprendido a nojenta politicagem. Decida como decidi - e faz um tempo: "Ninguém nunca mais colocará as mãos na minha coleção de frascos vazios de perfume"; "Ninguém".

O que é certo, o que é errado, não pense nisso querida, é como aquela heroína do filme: se Buda aparecer, mate-o.
Comibine-se consigo mesma, comece com o que tem: os cacos, as mágoas, os dois filhos, a vida que nunca se realizará. Reivente-se. Saia de dentro dos sonhos e desperte, e para tanto, dou uma dica, seja exuberante e apenas ofereça somente à você o brinde.

Monday, June 05, 2006

DO TERCEIRO PRO QUARTO (se caio, rapidamente saio do buraco)

Recuperar o folêgo.

Os dias passam
A novidade persiste
telefonemas raros
atestam o desdobramento do fenômeno.
Nem eu mesma participo,
e é estranhamente belo saber
que você
é a sua própria substância
e que
para tanto,
estrututar-se
no mistério
é o dilema pra levantar a casa.

Destino? Liberdade?

Duas vias -
até o caminho do meio depende das duas benditas vias
Pque é valioso escolher?
Quando uma história começa e quando esta termina?

(garotinha, vai dormir...)

Liberdade de ser o que o coração deseja
a revolução deve ser silenciosa
pois a verdade só reverbera no infinito
cabendo a nós estremercemos ante a Beleza.

Monday, March 06, 2006

TODAY


Como queira, era o que você dizia miando, mas isso já faz um tempo, agora é segunda e chove. As vezes os anos passados ficam presos na gente, e burramente ficamos cegos com o presente. Achava que pensava em você.

Agora, há café em cima da pia e obrigações indesejadas, os cheiros são outros, assim como a vizinhança que antes não percebia, me estende o convite de aceitar um gato da televisão à cabo. A cabo? E o novo diz: você sempre foi assim? No silêncioé que me dou bem: "Large" Me desajeito, não queria encarâ-lo, era lindamente cruel saber que se pode ser feliz de uma hora pra outra, que nada falta, e que a amitriptilina e o lexotan ficariam apenas pro charme.

Não são mais miados. Um dia, num dos episódios dos Simpsons, vi um cara que dormiu anos até acordar numa bela manhã e descobrir que os hits tinham mudado; não era mais Ace of base. Isso é mais comum do que imaginamos. E agora são urros.

"Quer vomitar?" Depende. Entrei, fui até a sacada, voltei pra sala e esperei de mim qualquer coisa, menos um pensamento burro. Aí é fácil de se trair. "Quer que eu te acompanhe?" Funcionar no automático é a solução, o instinto é o que me desenrosca do furduncio, e aceito sem saber o que sempre quisemos. É ele que eu amo.

Friday, February 24, 2006

ALL YOU NEED IS LOVE

Sem metáforas, sem adjetivos: o que deseja?
Tente responder abruptamente,
deixe a violência participar
como fazem os cavalos,
como arreganharam-se as vítimas
ancestrais de alguma Europa Perdida ou Japão Feudal.

Simbolicamente diria: uma alfaiataria,
mas isso seria uma compreensão intuitiva
que permite e não se questiona -
o alcatrão não é uma mistura de cores?

Além da razão e do amor,
sempre pediram demais da gente
ao começarmos por nós mesmos:
gerações, batalhas, fomes, a mestiçagem sanguínea

O amor diria de uma só vez,
love, love is my season...

Thursday, December 22, 2005

FIM DE 2005

Estar presente em todos os centésimos de segundo de um momento de vida: passado, presente, futuro - simplesmente unos. Fechados. Redondos.
É a sua história de vida em uma só ferida, que por sua vez, também é a própria cura.
Sairia exasiado desta experiência? Good clean Fun? No drugs?

O horizonte risca sem fim a abóboda laranja de um final de tarde em Araçatuba.
Como se ali, bem no monte alto, todos os eus se encontrassem, e juntos, um a um, diferenciados apenas por uma leve gradação de cores - assim como as escamas de um peixe - dançassem, o que talvez se possa dizer, a eternidade.

Ai, esses eus que começam a dar as mãos!

Monday, December 19, 2005

A MAIS VELHA

Se ainda existe o que sempre foi dado,
convidado, oferecido de parto profundo

nenhuma semente esgotará a tua possibilidade:
montará em vetanias, guardará o ouro debaixo da língua,
atravessará as arredias escarpas da autenticidade

pois é guerreiro e basta um músculo,
é homem e gosta de retornar
com as mãos cheias de perfumadas raízes...

É filho, irmão, amigo, que sabendo ser pequeno
sabe-se grandioso - não por pura ousadia , mas
pra provar o seu precioso dom de viver.

"E o emblema do fim é o esquecimento. Pois esquecer é igual a perder a identidade, a deixar de ser quem é. É ser devorado pelo grande Jaguar de cor azul-celeste e dissolver-se na multidão indistinta das grandes metrópoles".

Friday, December 16, 2005

A OUTRA

O bom era saber que ele sempre estaria ali, estendidinho com torradas na mão, fazendo palhaçada com o pano de prato, torcendo pra que o domingo fosse menos cruel com a gente: só tínhamos esse dia pra nos termos.

"Senta aqui", era como começava pra me consolar. Gostavamos da fragilidade e da cumplicidade, encenavamos papéis pré-estabelecidos, como se há pouco cada um tivesse decorado o roteiro do dramalão: ele era o homem sábio, pai, namorado que viera pra me salvar, pois sendo eu a desprotegida, nada era no mundo sem um varão...

E sentava no seu colo, e a dor apertava, e como um desfibrilador ele massageava meu coração com suas piadas espirituosas... Passava as mãos no meu cabelo, apertava o meu nariz pra tirar a coriza; lambia. E eu ria, e batia nele de tanta paixão, de agradecimento por ser Páscoa e na cidade, na grande cidade, cheia de pessoas, fantasmas e televisões, o que importava, o que irradiava, era termos um ao outro. Estaríamos sempre ali como um foto.

UMA DELAS

Perguntava-se quanto tempo ainda sentiria aquela tristeza. Mais um dia? Dois? O suficiente já deixara insuportável prosseguir em seus afazeres - precisava acabar o almoço antes que ele chegasse. Quanto tempo há dentro de mim?, foi uma pergunta absurda que fez a si mesma, mas gostou, cultivou, e por alguns instantes picar os tomates se tornou póetico. Poesia era o que a devorava timidamente desde a infância - não gostou deste pensamento, murchou a boca, e suspirou, era pretensioso demais, afetado demais, esvaia toda a potencialidade que tinha para o amor, para o pleno.

Mas era uma macaca. Uma macaca que fingia e se simulacrava... "Se Si-Mu-La-Cra-Va-Se". Observava as divas nas revistas e introjetava cheiros, charmes, amores.... Não era a poesia que a matava, não era o translúcido áureo de todas as coisas que a botava fora do eixo- isso era uma invençãoque fizera para se safar de seu estrondoso anonimato.
O que a deixava triste, o que engasgava a Dona Cotinha era o prosaico: as veias azuis das suas mãos gastas, as pontas duplas dos seus cabelos ressecados, a almofada para costurar... Quanto tempo há dentro de mim?- o almoço sairia daqui uma hora...